Mbandaka – Sexta-feira, 20/10/2006
Este grupo de freiras é muito alegre, quando estão todas juntas ouço-as tagarelar e depois riem alto, à gargalhada. Uma delas é dos Camarões, e está aqui há um ano, outra é Brasileira e já está no Congo há 13 anos.
Diário de Missão das Nações Unidas na República Democrática do Congo.
Dia 17, terça-feira, vou viajar em serviço, com destino a Lisala a 900 km de Kinshasa. Terei que pernoitar em Mbandaka, a capital da Província do Equador, e só dia 19 é que terei voo para Lisala. Irei como Security Officer, responsável pela segurança dos funcionários das Nações Unidas durante o período da segunda volta das eleições presidenciais, que será no dia 29 deste mês.
Só vou regressar a Kinshasa depois de contados os votos desta vila, havendo no local para o efeito elementos da Comissão Eleitoral Independente.
Como o próprio nome indica esta província fica na zona da linha do Equador.
O regresso a Kinshasa foi num sábado, dia 19. Era noite quando cheguei a casa e fui descansar cedo, no dia seguinte, domingo 20, tinha que preparar um relatório para ser entregue na segunda 21.
Depois de passar quase todo o dia de domingo a trabalhar com um colega da Costa do Marfim, saimos a pé do escritório em direcção a casa. Moramos na mesma rua e por isso em companhia faz-se bem os cerca de 500 metros, e os domingos são geralmente calmos. Antes de irmos directos a casa, passámos por um restaurante indiano e comprámos comida para levar.
Quando cheguei a casa eram cerca das 18H00, preparava-me para comer quando me pareceu ouvir foguetes. Domingo 20 era o dia do resultado das eleições presidenciais, e o que eu pensava serem foguetes eram na realidade tiros.
No rádio de serviço chegavam comunicações de que junto da Comissão Eleitoral Independente, havia um grupo de guardas presidências (guardas de Khabila) aos tiros, descontentes com o resultado: Khabila não conseguira obter a maioria absoluta dos votos e por isso iria haver uma segunda volta.
No dia seguinte, fui trabalhar, mas os tiros continuaram e aumentaram. Ouviam-se canhões, os guardas de Khabila atacaram a casa do segundo candidato presidencial, Bemba, onde na altura se reuniam vários embaixadores e o Chefe da Missão da Nações Unidas aqui na R. D. do Congo (MONUC). A situação complicou-se, 11 tanques militares da UN, e vários da Missão da União Europeia tiveram que retirar os embaixadores e o Chefe da MONUC da casa a ser atacada. Por todo o lado se ouviram troca de tiros entre os guardas de Khabila e os seguranças de Bemba.
As ordens eram para ninguém sair de onde estava.
Eu e os meus colegas de trabalho ficámos no escritório até as 21H, hora a que conseguimos ser escoltados até casa. Na terça ninguém foi trabalhar, os tiros continuavam. O aeroporto de Kinshasa estava encerrado, os voos cancelados. Na quarta a situação acalmou, regressámos ao trabalho e a pouco e pouco a calma regressou à cidade, apesar de se sentir a tensão e as ruas estarem desertas.